20 de junho de 2007

Cartas para o ego

Escrevo cartas para ninguém
Meus devaneios tortos - só meus - só fazem sentido para mim
Meus pensamentos tortos, de palavras fáceis,
Só encontram eco em minha caverna rasa.

Escrevo minhas cartas para um ego
Um ego que se alimenta de fumaça
Da fumaça densa e escura
Produto das chamas que consomem meu mundo
Um mundo em constante transformação.

As chamas consomem tudo aquilo que achei que me pertencia
Algumas colunas e rios não são alterados
Só ganham novos tons de cinza
E são enfeitados com fuligem e poeira.

Ah! Minhas cartas para o ego
São pequenos focos de fogo
Que o sopro leve da dúvida
Transforma em incêndio sem controle
Necessário para um novo mundo
E um novo incêndio surgir.


Liliane Oliveira
Salvador, 18 de novembro de 2006

Dizer-te adeus

Decidi dizer-te adeus
Direi adeus ao silêncio
Direi adeus à distância
Direi adeus ao que criei.

Digo-te adeus, e também a mim,
Às minhas preocupações vãs
Aos meus devaneios tortos
À minha solidão quente.

Um dia, quem sabe, talvez
Folhei o meu livro de memórias
E me lembre deste dia
E dos outros dias
E dos dias que se seguiram
E me recorde tudo aquilo que não vivi
E tudo o que senti
E me pergunte ao final:
- Valeu a pena dizer-te adeus?

Liliane Oliveira
Salvador, 30 de outubro de 2006

25 de maio de 2007

Tô melhorando...

Tô melhorando minhas cartas... Quem sabe encontro eco!

Nem tão só

Quero ouvir a música da rua
Quero ter o cheiro do mato
Quero ver o arco-íris no mar

Vou sentir as batidas do meu coração
Num louco compasso ritmado
Vou rolar na grama e no asfalto
Vou me pintar em tons de cinza e grená

Vou tocar o céu com uma das mãos
E descortinar as janelas de minha alma
Quero sentir o doce orvalho da manhã
E vou dormir sob um manto de estrelas

Quero andar pelas ruas e descobrir segredos ocultos
Quero um beijo forte ao despertar
E um longo afago para me acalmar.

Liliane Oliveira
Salvador, 25 de maio de 2007

9 de maio de 2007

Frase do dia:

"O amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só."
Leon Tolstói

3 de maio de 2007

Salvador do século XIX

Socorro

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo

Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir

Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas

Já não sinto amor nem dor

Já não sinto nada

Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha

Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que
sirva

Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento,
Acostamento,
Encruzilhada

Socorro eu já não estou sentindo nada
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir

Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas

Já não sinto amor nem dor

Já não sinto nada

Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha

Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva

Qualquer coisa que se sinta

Tem tantos sentimentos, deve ter algum que
sirva

(Arnaldo Antunes)

Eu quero um porto

Eu desejo um porto
Que ele tenha águas calmas
Que ele seja profundo

Eu desejo um porto que me aporte
Mesmo com minhas incertezas da maré correta
Mesmo com minha revolta pelas derrotas
Mesmo com minha alegria pelas vitórias
Mesmo com meus desvios de rota

Eu preciso de um porto que me aporte
Um porto que não me questione muito
Um porto que sinta a brisa serena que vem do mar
Um porto que me permita enxergar o horizonte numa noite de luar

Eu, talvez, não precise de um porto assim
Ele pode até não ter a vista ampliada do horizonte
Ele pode estar numa enseada ou num recife de corais
Ele pode ser tão livre quanto eu
Mas ele deve ser o meu porto como vier e como eu chegar

Liliane Oliveira
Salvador, 03 de maio de 2007